Honra e Morte
Rodrigo Lima
Havia um conto antigo no sertão da cidade – os Mascarenhas e os Gonçalves brigam desde que o sertão é seco – história tão antiga quanto a inauguração dessas terras. Em 1878, no tempo do Marcolino, em Nossa Senhora da Conceição do Riachão do Jacuípe, gente era fazendeiro rico, conversa era minério e ouro, desconversa era guerra, bala e morte. Mas na zombaria da vida, nada que se mostrasse promissor prosperou no sertão de Riachão. A seca venceu todos os combates. Os fazendeiros fugiram para a cidade. Quem ficou por lá, dos Gonçalves e dos Mascarenhas, carregava o jugo de sustentar uma rixa murcha e pálida que não encontrava abrigo no peito de ninguém, mas que cabia a memória humana ressuscitar a tradição da disputa.
Olegário, avô patriarca dos Gonçalves, tinha por neta Mariana, moça bonita como égua nova. Afonso era moço afeiçoado e manso, feito bicho medroso, neto de Amaro, o pai de todos os Mascarenhas. Em outros tempos, esses patriarcas guerreavam com faca, tiro e pedra, marcados nos rostos por navalha de degolar boi, briga de menino, no ápice do ódio humano. Hoje, filhos e netos não faziam valer a tradição. A luta se perdeu no córrego do tempo. É certo que nunca houve caso de aproximação entre essas famílias, até o Afonso e Mariana cruzarem as fronteiras da desavença. Cão e gato não se junta, isso ainda acaba em morte – dizia o velho Hermetino. Nada diziam os pais, nem os tios, nem os netos. Tudo parecia normal, menos para Olegário e Amaro. Ambos não aceitavam essa ideia de união, travados no tempo, permaneciam vivendo uma saga de rancor. Olegário jurou morte. Amaro desafiou. Só faltavam voluntários para pôr esses dois velhotes centenários de pé para iniciar o combate.
Piorando a situação, a cidade cochichava: a menina está embuchada. Ora! O velho nada vai gostar - disse Hermetino, o informante-mor. Era o início da festa do Boi Gordo e de fartura só o calor da terra. O povo esquecia a fome indo pra estrada ver os jagunços galoparem. Era fim de tarde, o velho Olegário, sozinho, na frente da fogueira de mandacaru, mascava fumo e a cada cusparada dizia: neta minha não é puta! Trouxe o burro até as escadas, deitou sobre o animal e o fez andar para as terras dos Mascarenhas. A faca na cintura feria o velho corcunda. Suado e cansado, tinha vingança nos lábios. Na porta da fazenda Mascarenhas, mais robusto e forte estava o Amaro. Ele andava para lá e para cá vigiando suas terras. Estava cego e coxo, usava nas mãos um cajado de umbuzeiro inútil, pois o velho Amaro conhecia tudo naquelas bandas. Ainda longe, ouvia aquelas patadas daquele burro, fingindo desconhecer que seu algoz chegava. Olegário se lançou ao chão, sangrando, sofria com as costas doloridas.
- Levanta desgraçado, você vai morrer em minhas mãos – disse o Amaro.
O combate se fez. Os dois se enrolaram no estrume do gado, do verde ao escarlate. Amaro gemeu na finura da faca. Olegário, com as costas prensadas também não resistiu. Morreram abraçados. O Hermetino viu tudo e foi avisar.
No cemitério do sub-distrito de Terra Santa, dois caixões e uma multidão. Duas famílias, uma única dor. Duas mortes e uma única vida nascendo. Jabes rasgava o ventre de Mariana para viver e sepultar a história de honra e morte entre os Mascarenhas e os Gonçalves nas terras de Riachão, onde rio passava bem longe.
Meus versos
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Um conto de fidelidade
Rodrigo Lima
Apesar de jovem, Felipe tinha gosto absurdo por casamento. Essa obsessão – incomum a moço do seu tempo – lhe trouxera um currículo trágico. Cinco garotas, cinco virgens, cinco pedidos de casamento. Cinco tentativas, cinco fracassos, cinco vezes traído. Quando se segue o rito do cavalheiro, do fiel e do romântico, sob as ordens da tradição, e a recompensa de tudo isso é a traição e o fracasso, não se pode esperar outra lógica, senão a do caos. Duas vezes tentou cortar os pulsos, dois meses de depressão, outra tentativa, suicídio infame do segundo andar, uma perna quebrada, e muitos dias amargurados.
A família tentou tratar o garoto; tentaram mais uma internação. Desde moleque, o menino se mostrava diferente, passando por constantes clínicas. Os pais, preocupados, se uniram como se não houvesse divórcio para tratar essa nova crise. Porém, dessa vez, ele fugiu na mesma noite. Felipe tinha teimosia em viver uma felicidade conjugal, harmoniosa e fiel, fiel aos moldes cristão. Agora, lesado no código da fidelidade, já não havia critérios na sua escolha. Pois, para ele, a prudência nunca lhe escapou. Mas, as moças tornaram-se putas. A lógica do caos remete a inversão da possibilidade. Nesse caso, as putas tornarem-se moças. Não lhe passava outra idéia, estava contraditoriamente certo.
Na noite de sexta, no bordel do centro, lá estava. Chegou a pé, com perfume suave e uma rosa no bolso, uma elegância descabida. Já era tarde, as putas olhavam para ele com certa aversão. Um sujeito carregado de certa anormalidade. Seus olhos se encantaram pela menina mais nova da casa, Cíntia. Magra, quase raquítica, cabelos ralos e longos, olhos de sexo, boca de sexo, tudo nela era sexo. Mas, alguém vira nela uma esposa fiel. Quando ele se aproximou e disse: “Boa noite”, as meninas se assustaram, mas sorriram forçadamente. Ele apontou para Cíntia e sorriu, entregou a carteira a uma velha que estava sentada na entrada e pediu um quarto. Convidou-a. Cíntia aceitou meio temerosa, porém, educada para o prazer, ainda se mostrava lascívia.
No quarto, ele ofereceu uma bebida. Ela tomou a garrafa e roçou nos lábios de forma circular. O marido tomou a garrafa e lançou um olhar frio para esposa, como quem quer, pela submissão, ensinar. Ela não entendeu. Ele mostrou o sofá, e ela num salto se abriu, convidando-o. Dessa vez, ele se aproximou, a tomou pelo braço, e a colocou sentada.
Assustada, ela perguntou:
- O que você quer?
Os olhos de Felipe brilharam, e sorrindo, quase gargalhando, ele disse:
- Você aceita casar comigo?
A menina não disse nada, nem tinha pra dizer. A pergunta era uma mistura de loucura e zombaria, zombaria com os seus sonhos de uma reles rapariga. Desde menina, ela desejara pertencer a um homem só, e agora, no bordel, um louco desejava brincar com seus sentimentos? Assustada, Cíntia apenas temia, contendo um choro de raiva. Agora, tinha certeza da loucura de Felipe.
Apertando a sua mão, Felipe tirou um par de alianças do bolso, pegou a sua mão esquerda e começava a cerimônia. A garota explodia em riso e em choro, nervosismo e medo. Ela era muito nova pra lidar com aquilo tudo. Em minutos, ela passava de puta à esposa. E ele fez com que ela repetisse “prometo que serei fiel”. O marido a tomou pelos braços, e conduziu a noiva à câmara nupcial. Lágrimas, loucura, medo, sexo, prazer. Tudo estava consumado.
Pela manhã, a esposa procurou o marido, mas ele já tinha partido. No silêncio matutino, num carro, homens de branco vestiram-lhe uma camisa. Ele não reagiu. Resignou-se.
A esposa ainda procurava respostas para tudo aquilo. Quando ela voltou ao quarto, ao pé da cama, ela encontrara um bilhete que dizia: Como juraste, Sê fiel até a minha morte.
Rodrigo Lima
Apesar de jovem, Felipe tinha gosto absurdo por casamento. Essa obsessão – incomum a moço do seu tempo – lhe trouxera um currículo trágico. Cinco garotas, cinco virgens, cinco pedidos de casamento. Cinco tentativas, cinco fracassos, cinco vezes traído. Quando se segue o rito do cavalheiro, do fiel e do romântico, sob as ordens da tradição, e a recompensa de tudo isso é a traição e o fracasso, não se pode esperar outra lógica, senão a do caos. Duas vezes tentou cortar os pulsos, dois meses de depressão, outra tentativa, suicídio infame do segundo andar, uma perna quebrada, e muitos dias amargurados.
A família tentou tratar o garoto; tentaram mais uma internação. Desde moleque, o menino se mostrava diferente, passando por constantes clínicas. Os pais, preocupados, se uniram como se não houvesse divórcio para tratar essa nova crise. Porém, dessa vez, ele fugiu na mesma noite. Felipe tinha teimosia em viver uma felicidade conjugal, harmoniosa e fiel, fiel aos moldes cristão. Agora, lesado no código da fidelidade, já não havia critérios na sua escolha. Pois, para ele, a prudência nunca lhe escapou. Mas, as moças tornaram-se putas. A lógica do caos remete a inversão da possibilidade. Nesse caso, as putas tornarem-se moças. Não lhe passava outra idéia, estava contraditoriamente certo.
Na noite de sexta, no bordel do centro, lá estava. Chegou a pé, com perfume suave e uma rosa no bolso, uma elegância descabida. Já era tarde, as putas olhavam para ele com certa aversão. Um sujeito carregado de certa anormalidade. Seus olhos se encantaram pela menina mais nova da casa, Cíntia. Magra, quase raquítica, cabelos ralos e longos, olhos de sexo, boca de sexo, tudo nela era sexo. Mas, alguém vira nela uma esposa fiel. Quando ele se aproximou e disse: “Boa noite”, as meninas se assustaram, mas sorriram forçadamente. Ele apontou para Cíntia e sorriu, entregou a carteira a uma velha que estava sentada na entrada e pediu um quarto. Convidou-a. Cíntia aceitou meio temerosa, porém, educada para o prazer, ainda se mostrava lascívia.
No quarto, ele ofereceu uma bebida. Ela tomou a garrafa e roçou nos lábios de forma circular. O marido tomou a garrafa e lançou um olhar frio para esposa, como quem quer, pela submissão, ensinar. Ela não entendeu. Ele mostrou o sofá, e ela num salto se abriu, convidando-o. Dessa vez, ele se aproximou, a tomou pelo braço, e a colocou sentada.
Assustada, ela perguntou:
- O que você quer?
Os olhos de Felipe brilharam, e sorrindo, quase gargalhando, ele disse:
- Você aceita casar comigo?
A menina não disse nada, nem tinha pra dizer. A pergunta era uma mistura de loucura e zombaria, zombaria com os seus sonhos de uma reles rapariga. Desde menina, ela desejara pertencer a um homem só, e agora, no bordel, um louco desejava brincar com seus sentimentos? Assustada, Cíntia apenas temia, contendo um choro de raiva. Agora, tinha certeza da loucura de Felipe.
Apertando a sua mão, Felipe tirou um par de alianças do bolso, pegou a sua mão esquerda e começava a cerimônia. A garota explodia em riso e em choro, nervosismo e medo. Ela era muito nova pra lidar com aquilo tudo. Em minutos, ela passava de puta à esposa. E ele fez com que ela repetisse “prometo que serei fiel”. O marido a tomou pelos braços, e conduziu a noiva à câmara nupcial. Lágrimas, loucura, medo, sexo, prazer. Tudo estava consumado.
Pela manhã, a esposa procurou o marido, mas ele já tinha partido. No silêncio matutino, num carro, homens de branco vestiram-lhe uma camisa. Ele não reagiu. Resignou-se.
A esposa ainda procurava respostas para tudo aquilo. Quando ela voltou ao quarto, ao pé da cama, ela encontrara um bilhete que dizia: Como juraste, Sê fiel até a minha morte.
Rodrigo Lima
Um Crime Passional
Na escuridão da esquina, só uma luz fraca de um velho poste, quase vagalume, nem polícia, nem vigia, nem nada. A rua nua e entregue ao temor da noite. Quem passa na esquina da rua Sete tem sempre um canto de temor nos lábios e certa ligeireza no andar. As pessoas dormem como dorme o mundo na noite. Só não dorme quem vive assim por ofício, por vontade, ou por dor. Porém, nem ofício, nem vontade, nem dor, Lucia Motta, chefe do Departamento de Investigação da Polícia Civil, levantava da cama, pela quarta vez, procurando um álibi para aquela insônia incomum.
O presente da maioridade foi sua nomeação como militar. Prestou concurso, e especializou-se nas investigações de crime contra a mulher. Era representante do grupo feminista no conselho do estado. Em sua milícia, era inadmissível a impunidade para os algozes. Na primeira noite de férias, em casa, tentava compreender o furto do seu sono.
Um leve barulho na rua roubou sua atenção. Do quinto andar, via movimentações frente à velha oficina. Sabia que abrir a janela seria suficiente para chamar atenção. Pegou o objeto, limpou as lentes, e aproximou o zoom. Parecia um flagrante, mesmo na escuridão da sala arriscou um relato: sexo explícito. Tentava se controlar, afinal, iniciava a tão esperada férias, não cabia, agora bancar a Sherlock Holmes. Olhou outra vez, e repudiava a cena. Não aceitava uma mulher se prestar aquela situação – entre aberta sobre uma velharia para satisfazer um tipo como aquele. Não se contentou, tentou reconhecer a vítima, mas não era conhecida. Verificava apenas como tudo se procedia com certa brutalidade, pelos lábios da garota da oficina identificavam-se gritos mudos. Mas, de prazer ou dor?
Lucia, apesar de jovem, era experiente. Uma experiência indesejada, a experiência do abuso. Sua vivência era também suficiente para entender que nesse tipo de dominação também havia o pacto de passividade daquela mulher. Intrometer-se abruptamente poderia ser também infértil e equivocada. Duas vezes abandonou a cena. Quando voltou pela terceira vez estava indignada, tudo aquilo que combatia nos congressos estava ali, em sua frente. O império fálico e o prazer exclusivo do macho no ato. Foi então que quando vira certa lágrima nos olhos da garota, ela afastou-se da janela. Agora estava decidida. Da próxima vez faria algo para acabar com aquilo. Pegou o revólver e pensou num tiro para alto. Trêmula, ela esperou dois minutos, respirava tentando se controlar. Não houve controle, abriu a janela e atirou.
Poucas horas depois, o dia nascia amargo. Onde o casal se amassava, agora, o povo se amassava para ver dois corpos estendidos. Um parecia ferido por bala, e o outro sem bala, mas com marcas de estupro.
Já era claro, mas não se sabe por que Lucia ainda não conseguia dormir.
Um Crime Passional
Na escuridão da esquina, só uma luz fraca de um velho poste, quase vagalume, nem polícia, nem vigia, nem nada. A rua nua e entregue ao temor da noite. Quem passa na esquina da rua Sete tem sempre um canto de temor nos lábios e certa ligeireza no andar. As pessoas dormem como dorme o mundo na noite. Só não dorme quem vive assim por ofício, por vontade, ou por dor. Porém, nem ofício, nem vontade, nem dor, Lucia Motta, chefe do Departamento de Investigação da Polícia Civil, levantava da cama, pela quarta vez, procurando um álibi para aquela insônia incomum.
O presente da maioridade foi sua nomeação como militar. Prestou concurso, e especializou-se nas investigações de crime contra a mulher. Era representante do grupo feminista no conselho do estado. Em sua milícia, era inadmissível a impunidade para os algozes. Na primeira noite de férias, em casa, tentava compreender o furto do seu sono.
Um leve barulho na rua roubou sua atenção. Do quinto andar, via movimentações frente à velha oficina. Sabia que abrir a janela seria suficiente para chamar atenção. Pegou o objeto, limpou as lentes, e aproximou o zoom. Parecia um flagrante, mesmo na escuridão da sala arriscou um relato: sexo explícito. Tentava se controlar, afinal, iniciava a tão esperada férias, não cabia, agora bancar a Sherlock Holmes. Olhou outra vez, e repudiava a cena. Não aceitava uma mulher se prestar aquela situação – entre aberta sobre uma velharia para satisfazer um tipo como aquele. Não se contentou, tentou reconhecer a vítima, mas não era conhecida. Verificava apenas como tudo se procedia com certa brutalidade, pelos lábios da garota da oficina identificavam-se gritos mudos. Mas, de prazer ou dor?
Lucia, apesar de jovem, era experiente. Uma experiência indesejada, a experiência do abuso. Sua vivência era também suficiente para entender que nesse tipo de dominação também havia o pacto de passividade daquela mulher. Intrometer-se abruptamente poderia ser também infértil e equivocada. Duas vezes abandonou a cena. Quando voltou pela terceira vez estava indignada, tudo aquilo que combatia nos congressos estava ali, em sua frente. O império fálico e o prazer exclusivo do macho no ato. Foi então que quando vira certa lágrima nos olhos da garota, ela afastou-se da janela. Agora estava decidida. Da próxima vez faria algo para acabar com aquilo. Pegou o revólver e pensou num tiro para alto. Trêmula, ela esperou dois minutos, respirava tentando se controlar. Não houve controle, abriu a janela e atirou.
Poucas horas depois, o dia nascia amargo. Onde o casal se amassava, agora, o povo se amassava para ver dois corpos estendidos. Um parecia ferido por bala, e o outro sem bala, mas com marcas de estupro.
Já era claro, mas não se sabe por que Lucia ainda não conseguia dormir.
A Ponte de Vera Cruz
Rodrigo Lima
Houve um tempo em que era missionário das letras do meu povo. No cais do porto, no fim da tarde, do terceiro dia, partia numa embarcação à moda navio negreiro. Uma mochila idosa, um par de tênis cansado e uma camiseta de tecido fino, incapaz de me esquentar na viagem.
Decidido e entregue, trabalhava nessa lavoura como quem se dá a dor. Quando erguia a voz, certo espírito me tomava. Um assomo de vozes, mosaico de citações, um culto à poesia, gozo literário. No fim, um mantra, a igreja em louvor agradecia e sentia-se iluminada. E eu apenas olhava com a leve sensação de dever cumprido.
Tinha certa paixão por este ofício, mas há sempre na vida algo que insiste em contrariar. E no meu caminho surgia aquela embarcação. Para chegar ao meu destino, tinha que atravessar um meio-mar, um rio salgado. Sessenta minutos de ondulação sobre as águas, se engarrafamento não houvesse. Maré baixa, fila quilométrica, lancha quebrada. Maré muito alta, ausência de passageiros e um funcionário que pontualmente chegou a seu horário de atraso. Eis o empecilho de minha missão.
Durante a viagem, passava o servo menino sua dura prova. Embarcação lotada, quis me sentar, não houve assento, quis ver o mar, e o mar fazia careta. Onda sobre a noite escura e o marinheiro descia as cortinas que encenavam ser janelas. Mas, a verdade é que era uma angústia exclusiva. Para o povo, aquilo era corrida diária, sua história, cultura, labuta que não se muda. Mas, em meus sonhos, tinha que mudar.
Enquanto me espremia naquele compensado que boiava, mesmo às vezes numa bela tarde de lindo pôr-do-sol, era sempre um desafio. Sempre para me contrapor, havia cinco a seis turistas que riam e prosavam admirados com a beleza da viagem. Eu? Aos enjôos de mulher grávida. Um insuportável cheiro de homens e mulheres sujos do dia, em harmonia com o motor barulhento, tedioso. E enquanto viajava sob aqueles comboios que realçavam e sustentavam o ar paradisíaco daquela ilha, eu sonhava com uma ponte.
Ah! Profetizava uma ponte e aos meus deuses invocava. Uma ponte. Uma ponte que transpusesse o mar e livrasse-me da árdua viagem. Não me importava com as questões socioculturais, políticas ou econômicas que estavam em jogo. Eu só queria uma ponte. Uma ponte que não me fizesse beber aquele cálice.
Certo dia, vi dois senhores discutindo acerca. E em alta voz considerava o velho marinheiro:
- Jamais vou permitir a construção dessa ponte. Essas lanchas, esta viagem... Isso tudo é nossa história, nossa vida e sustento!
E enquanto ele falava aos berros, eu conseguia ver perfeitamente sobre sua cabeça um arco forte, alto, rígido cortando o mar e máquinas velozes atravessando as águas ao encontro da Ilha de Vera Cruz. Eu via uma ponte.
Rodrigo Lima
Houve um tempo em que era missionário das letras do meu povo. No cais do porto, no fim da tarde, do terceiro dia, partia numa embarcação à moda navio negreiro. Uma mochila idosa, um par de tênis cansado e uma camiseta de tecido fino, incapaz de me esquentar na viagem.
Decidido e entregue, trabalhava nessa lavoura como quem se dá a dor. Quando erguia a voz, certo espírito me tomava. Um assomo de vozes, mosaico de citações, um culto à poesia, gozo literário. No fim, um mantra, a igreja em louvor agradecia e sentia-se iluminada. E eu apenas olhava com a leve sensação de dever cumprido.
Tinha certa paixão por este ofício, mas há sempre na vida algo que insiste em contrariar. E no meu caminho surgia aquela embarcação. Para chegar ao meu destino, tinha que atravessar um meio-mar, um rio salgado. Sessenta minutos de ondulação sobre as águas, se engarrafamento não houvesse. Maré baixa, fila quilométrica, lancha quebrada. Maré muito alta, ausência de passageiros e um funcionário que pontualmente chegou a seu horário de atraso. Eis o empecilho de minha missão.
Durante a viagem, passava o servo menino sua dura prova. Embarcação lotada, quis me sentar, não houve assento, quis ver o mar, e o mar fazia careta. Onda sobre a noite escura e o marinheiro descia as cortinas que encenavam ser janelas. Mas, a verdade é que era uma angústia exclusiva. Para o povo, aquilo era corrida diária, sua história, cultura, labuta que não se muda. Mas, em meus sonhos, tinha que mudar.
Enquanto me espremia naquele compensado que boiava, mesmo às vezes numa bela tarde de lindo pôr-do-sol, era sempre um desafio. Sempre para me contrapor, havia cinco a seis turistas que riam e prosavam admirados com a beleza da viagem. Eu? Aos enjôos de mulher grávida. Um insuportável cheiro de homens e mulheres sujos do dia, em harmonia com o motor barulhento, tedioso. E enquanto viajava sob aqueles comboios que realçavam e sustentavam o ar paradisíaco daquela ilha, eu sonhava com uma ponte.
Ah! Profetizava uma ponte e aos meus deuses invocava. Uma ponte. Uma ponte que transpusesse o mar e livrasse-me da árdua viagem. Não me importava com as questões socioculturais, políticas ou econômicas que estavam em jogo. Eu só queria uma ponte. Uma ponte que não me fizesse beber aquele cálice.
Certo dia, vi dois senhores discutindo acerca. E em alta voz considerava o velho marinheiro:
- Jamais vou permitir a construção dessa ponte. Essas lanchas, esta viagem... Isso tudo é nossa história, nossa vida e sustento!
E enquanto ele falava aos berros, eu conseguia ver perfeitamente sobre sua cabeça um arco forte, alto, rígido cortando o mar e máquinas velozes atravessando as águas ao encontro da Ilha de Vera Cruz. Eu via uma ponte.
A mulher que passa
Dedicado a Vinícius de Moraes
Quando os nossos olhos avistaram a miragem, eu era ainda muito novo, mas meus dias se tornavam tardes. E foi assim, quando pudemos vê-la, a última estrela se despedia do sol anunciando o caminho aos que pelo mar navegavam. E o mesmo sol, que se dependurava sobre o céu ainda alisava o topo dos altos prédios da cidade.
Perto do ponto, bem ao lado da padaria, enquanto os homens acordavam para o dia, alguns velhos e barraqueiros prosavam sobre o leve silêncio da alvorada, ela acabava de passar.
Quem saberia seu nome? Enigma. Pouco ela esteve por ali. Mas, naquela manhã, fui o primeiro a vê-la. Parece que foi certa intuição que me fez ficar por aqui mesmo, debaixo do banco da praça. Daria tudo para viver eternamente a cena, prostrado aquela mulher, a mulher que passa.
No momento, eu fingia dormir, sobre alguns jornais ao lado de meu velho amigo Vinícius. Não sei o que havia com ele, nada disse em todo tempo, só espremia um toco de lápis sobre alguns papéis. Porém, eu continuava vulneravelmente ao soar dos passos da mulher que passa.
Desde moleque, aprendi com meu pai reconhecer moça bonita. Aprendi em apenas um olhar descobri a mais formosa entre o grupinho das meninas. Sentia-me tão esperto no colegiado, garoto vivido. Anos após, fugi de casa. Lancei-me a certa liberdade. E hoje, estou aqui, sem ainda ser dia, preso, feito idiota. Detalhadamente, contemplando os passos da mulher que passa.
Dedicado a Vinícius de Moraes
Quando os nossos olhos avistaram a miragem, eu era ainda muito novo, mas meus dias se tornavam tardes. E foi assim, quando pudemos vê-la, a última estrela se despedia do sol anunciando o caminho aos que pelo mar navegavam. E o mesmo sol, que se dependurava sobre o céu ainda alisava o topo dos altos prédios da cidade.
Perto do ponto, bem ao lado da padaria, enquanto os homens acordavam para o dia, alguns velhos e barraqueiros prosavam sobre o leve silêncio da alvorada, ela acabava de passar.
Quem saberia seu nome? Enigma. Pouco ela esteve por ali. Mas, naquela manhã, fui o primeiro a vê-la. Parece que foi certa intuição que me fez ficar por aqui mesmo, debaixo do banco da praça. Daria tudo para viver eternamente a cena, prostrado aquela mulher, a mulher que passa.
No momento, eu fingia dormir, sobre alguns jornais ao lado de meu velho amigo Vinícius. Não sei o que havia com ele, nada disse em todo tempo, só espremia um toco de lápis sobre alguns papéis. Porém, eu continuava vulneravelmente ao soar dos passos da mulher que passa.
Desde moleque, aprendi com meu pai reconhecer moça bonita. Aprendi em apenas um olhar descobri a mais formosa entre o grupinho das meninas. Sentia-me tão esperto no colegiado, garoto vivido. Anos após, fugi de casa. Lancei-me a certa liberdade. E hoje, estou aqui, sem ainda ser dia, preso, feito idiota. Detalhadamente, contemplando os passos da mulher que passa.
Chance
Chance
Rodrigo Lima
Olha Amor,
se o vento passar
e lançar-me a mercê do tempo.
Peço que...
lembres do lirismo dos meus versos,
lembres da embriaguez dos meus olhos.
Acho que aí está o meu segredo,
aí se esconde toda paixão.
Cadáver que afunda no oceano,
se assemelha a mim, amor,
sem ti, amor ,
é pouco, amor,
não dá.
Rodrigo Lima
Olha Amor,
se o vento passar
e lançar-me a mercê do tempo.
Peço que...
lembres do lirismo dos meus versos,
lembres da embriaguez dos meus olhos.
Acho que aí está o meu segredo,
aí se esconde toda paixão.
Cadáver que afunda no oceano,
se assemelha a mim, amor,
sem ti, amor ,
é pouco, amor,
não dá.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Memorial de um Canalha.
Escorria um bilhete miúdo do meu infiel bolso jeans. Desgraçado! Desde quando o comprei sempre fazia vacilar moedas e objetos, fez vacilar agora um álibi para esta mulher que me incrimina incessantemente. Ela não confia em mim, e eu nem sequer poderia confiar naquele bolso furado de calça que teimosamente insistia em utilizá-la. Desliza, agora, o maldito papel, motivado por um insensível bolso que não sabe guardar coisas, muito menos segredos. Foi parar o bilhete sobre um tapete invisível de cor, cor de papel. Já, há alguns dias, ao sair, esfregava meus pés sobre ele, oferecendo-lhes outras cores, cada dia ganhando novas faces encardidas. Cores indesejadas, mas ainda incapazes de diferenciar tapete e papel.
Mais indesejável foi este bilhete de letras redondas que denunciavam uma escrita feminina, “Outra vez, te espero em minha cama, onde se encerra o mundo, onde se inicia um sonho”, abaixo, duas letras “C. M” insinuando as inicias do autor.
Quando casei com Aline, não tínhamos sequer um ano juntos. Alta, pernas longas e grossas, peitos avantajados, uma cabeleira cheia. Corpo esteticamente perfeito, para mim e para toda a rapaziada do condomínio. Era acordo de compadres. Era uma daquelas que quando passava as feias despeitosas diziam: Olha lá, isso aí é vadia! Uma mulher que quando se apaixona, mata e morre por amor.
Aline só tinha um defeito. Na verdade, seria melhor que tivesse muitos. Meu avô dizia um ditado que eu nunca entendia, mas achava a maior graça: “mulher ciumenta é igual aranha, prende o homem pela teia”. Em seguida, o ditado não fazia mais graça, tornei-me este homem. E em suas teias ela prendia o mundo, coisas, pessoas. Gostava que lhe chamasse de “dona”. Logo assumiu a propriedade.
Só foi preciso algumas semanas para me afastar de amigos, de todas as amigas. Quando acordei, deparei-me com o padre pedindo-me que repetisse: na alegria, e na tristeza, na saúde... Tarde demais.
O ciúme. A posse de todas as coisas, de mim. Esse era o problema de Aline.
Na primeira noite em que conheceu minha família, prenunciou a catástrofe:
- José, por que essa tua prima Soraia não para de olhar pra você?
- Dona... Dizia eu, até ela me interromper.
- E por que ela te chama de Zé?
Nunca me deixou responder.
Tive sempre poucas mulheres como amigas, as últimas que fizeram parte da minha vida, eu tive a infelicidade de perdê-las tragicamente. Lembro-me da minha primeira demissão.
- José Martins ainda está na loja?
- Acredito que sim. Quer que eu vá chamá-lo?
- Não, não é necessário. Deixa que eu mesma vou.
Era a terceira vez naquela semana que ela aparecia lá na loja. Nesse tempo eu trabalhava como segurança. Era um ótimo emprego, até Aline aparecer em minha vida.
Naquele dia, eu não tive sorte alguma, quando ela chegou à área em que eu trabalhava. Em horário de descanso, estávamos todos rindo de uma situação cômica em que um colega de trabalho tinha se envolvido. Infelizmente, quando ela me avistou, minha supervisora estava rindo com uma das mãos em meu ombro esquerdo, fazia piadas sobre um colega em meu ouvido, coisas de trabalho. O que haveria de mais? Era tarde para saber. Aline já tinha nos surpreendido aproximando seus punhos para o rosto da minha supervisora.
Até a situação se explicar. Custou-me muito, meu emprego.
Quando se tem uma mulher como Aline, não dá para terminar as coisas assim, facilmente. É comprar briga e escândalo. Isso não fazia o meu tipo, sempre procurei ser discreto. Afinal, por trás de uma louca obsessiva, havia uma deusa maravilhosa e eu me orgulhava de ser seu adorador, comendo das migalhas de amores e carinhos que raramente ela oferecia.
Aline nunca foi querida por minha família. Ninguém suportava suas crises de ciúmes. Minha mãe uma vez me disse: essa sua menina precisa de um psicólogo. Sem falar dos amigos do prédio. Era só eu chegar e começavam os comentários. Mas, eu, com meu ar de viril, sempre, dizia a eles que Aline era material precioso. Só precisava ser lapidado. Mas, a verdade é que o preço era muito alto. Certo dia, o Arnaldo, grande parceiro, usou de toda sua sinceridade para me convencer a ter mais cuidado com esse casamento precipitado.
- Zé, por que tão depressa assim?
- Arnaldo, não sou eu quem quer. Aline me perturba todos os dias. Se não caso, essa garota endoidece.
Não sabia eu que doida mesmo foi como ela ficou ao ver aquele bilhete no tapete do nosso quarto. Um mês de casado. Minha primeira semana de volta a faculdade. E provavelmente nossa última briga.
Tudo aconteceu quando, em sala, ouvíamos um poema de Cecília Meireles. Era uma aula de poesia. Eu ali, sempre muito interessado em literatura, me deleitava ouvindo minha professora recitar poemas, uma paixão que sempre me levava a outras, a poesia. Ao meu lado, coincidentemente, amigas de curso que tinham em mim certo auxílio na literatura estavam sempre muito próximas. Era um poema lindo. A professora tinha recitado no fim da aula. Não quis atrapalhá-la. Guardei somente o último verso e quis escrevê-lo. Desprovido, lutando contra o esquecimento de algum vocábulo, pedi a uma colega que escrevesse o verso que lhe falei bem baixinho. No final, ela escreveu as iniciais da autora. Após isso, coloquei no bolso da calça e provavelmente só hoje pela manhã deve ter caído.
Era a décima vez que eu lhe explicava o aparecimento daquele bilhete. Eu realmente estava assustado com aquela situação. Ela não acreditava nessa minha versão. Aline, descabelada, já tinha desarrumado todo o nosso guarda-roupa. Como uma louca, tinha chorado a tarde inteira e agora em raiva, em pranto, me convidava para uma briga que eu nunca quis. Em gritos, ela anunciava para os vizinhos do prédio:
- José! Até quando você vai mentir pra mim.
- Mas, Dona...
- Isso já acontece há quanto tempo? Me diga! Então, se não me amava, por que casou, José?
Após dizer essas palavras, com aquela gagueira de quem chora, vi que desta vez era diferente.
- Dona...
- Não me chame de Dona, José! Você não é mais minha propriedade.
(Eu sabia que nisto ela estava certa.)
- Estou cansada José. Cansada! Cansada de suas mentiras!
- Dona...
Desta vez, ela não resistiu ao meu cinismo quando tornei a chamá-la assim. De cima da cômoda, o perfume nupcial vinha agora em minha direção e despedaçava-se em meu braço esquerdo. Livrei-me de uma cicatriz no rosto. E o cheiro que eu zombava em gozo em nossas noites, agora era tão insuportável como algo que nunca desejei. Ainda tentei evitar, mas o sangue, insistentemente marcava gota a gota aqueles lençóis. Lindos lençóis, fiéis testemunhas da minha farsa de trinta dias de casado.
Já era o fim. Porém, eu considerava muito cedo.
Apesar do drama daquela noite, eu achava que era apenas mais uma crise de ciúmes de Aline. Mas, não foi. No dia seguinte, Aline pronunciou uma palavra que um homem como eu já esperava ouvir, mas não tão cedo. Divórcio. Em menos de um mês nos divorciamos. Eu não estava nada feliz com aquilo tudo. Tudo muito rápido. Um mês atrás “possuído”, um mês a frente livre como um vira-lata. Um excesso de liberdade.
Aline não afrouxava da ideia de que fora traída e não aceitava a forma cínica como eu lhe dava com aquela situação. Foi triste para todos ver aquele casamento acabar. Mas, catastrófico foi ver no que todo aquele meu amadorismo.
A verdade é que Aline era muito ciumenta, e eu dotado de muito cinismo e farsa. Disputava com a moçada quem pegava mais garotas numa mesma noite. Numa dessas vi Aline. Apogeu da virilidade de qualquer sujeito como eu. Fui um sortudo apostador e ganhei. Minha sede era insaciável. Todas as vezes que podia, eu a tinha. E sempre a queria mais. Mas, a queria como queria também as outras. Como quis minha prima, desde moleque.
Quando desvirginei Soraia, vi que não há nada que marca tanto uma moça que sua primeira vez. Ela nunca se esquece de você. Eu tão rápido a esqueci. Mas, por extinto sempre a alimentava. Uma, duas, três. Não sei quantas vezes não fui só de Aline. Soraia é uma paixão que jamais esquecerei, coisa de primos.
Uma noite depois de conhecer Aline, eu conheci Denise, supervisora de uma loja de roupas. Em apenas uma noite, conquistei uma quarentona e um emprego. Eu já esperava minha promoção, era futuro garantido. Confesso que foi muito triste vê Aline destruir um caso tão ardente e tão promissor como esse.
Aline gastava muito tempo levantando barreiras e obstáculos para que eu não tivesse uma vida comum. Mas, eu era douto em fugas, em situações perigosas. Quando pediu minha mão em casamento e aceitei, já se passavam nove meses da minha melhor fase, êxtase da minha libido. Enquanto isso, ela, radiante, experimentava os vestidos mais lindos nas butiques.
Foi trabalhando como segurança que pude pagar a matrícula da faculdade. Não sei o que fazia lá. Logo, tudo fez sentido. Carol, uma gracinha de dezessete anos. Iniciando uma brilhante carreira de escritora, como que por encantamento apaixonou-se por mim. Ainda tentei evitar, mas, não quis magoá-la. Lia todos os seus poemas, mostrava-me um leitor alvoroçado, quase biógrafo. Foi uma paixão louca.
Esta, eu não pude esconder e por instante fui um amador. Todos na faculdade sabiam do nosso caso. Beijos e abraços nos corredores. Frequentemente, matávamos aulas. Íamos a sua casa, e lá estudávamos línguas... Ela não era tão boba. Enlouquecida, certo dia, me fez um convite através de verso, dizendo: “Outra vez, te espero em minha cama, onde se encerra o mundo, onde se inicia um sonho” e marcou com as inicias de seu nome, Carol Marinho. Pus no bolso. Aquele bolso jeans.
Dessa vez tive pouquíssimo tempo para mentir. É extremamente útil duas escritoras terem iniciais idênticas. Mas, este marabalismo não foi suficiente para convencer Aline. Isto nunca havia acontecido. Eu, entregue a uma paixão? Embriagado, numa noite, falei bobagens, deixei brechas. Dias antes do nosso casamento, Aline já sabia que suas suspeitas tinham razões. Mesmo assim, me levou ao altar. Nunca entendi essa parte.
Quem sempre teve tudo a todo instante não suporta viver sem nada por muito tempo. Essas rápidas mudanças acabaram com Aline. Adoecera. Ainda fui visitá-la, levei flores, mas após alguns dias, depressiva, e sem se alimentar não resistiu. Suicidou-se. Uma lástima. Um desperdício de mulher.
Foi a primeira vez que vi isso acontecer. Então, vi que preciso ser mais cuidadoso. Essa coisa de ciúme é uma merda!
Mais indesejável foi este bilhete de letras redondas que denunciavam uma escrita feminina, “Outra vez, te espero em minha cama, onde se encerra o mundo, onde se inicia um sonho”, abaixo, duas letras “C. M” insinuando as inicias do autor.
Quando casei com Aline, não tínhamos sequer um ano juntos. Alta, pernas longas e grossas, peitos avantajados, uma cabeleira cheia. Corpo esteticamente perfeito, para mim e para toda a rapaziada do condomínio. Era acordo de compadres. Era uma daquelas que quando passava as feias despeitosas diziam: Olha lá, isso aí é vadia! Uma mulher que quando se apaixona, mata e morre por amor.
Aline só tinha um defeito. Na verdade, seria melhor que tivesse muitos. Meu avô dizia um ditado que eu nunca entendia, mas achava a maior graça: “mulher ciumenta é igual aranha, prende o homem pela teia”. Em seguida, o ditado não fazia mais graça, tornei-me este homem. E em suas teias ela prendia o mundo, coisas, pessoas. Gostava que lhe chamasse de “dona”. Logo assumiu a propriedade.
Só foi preciso algumas semanas para me afastar de amigos, de todas as amigas. Quando acordei, deparei-me com o padre pedindo-me que repetisse: na alegria, e na tristeza, na saúde... Tarde demais.
O ciúme. A posse de todas as coisas, de mim. Esse era o problema de Aline.
Na primeira noite em que conheceu minha família, prenunciou a catástrofe:
- José, por que essa tua prima Soraia não para de olhar pra você?
- Dona... Dizia eu, até ela me interromper.
- E por que ela te chama de Zé?
Nunca me deixou responder.
Tive sempre poucas mulheres como amigas, as últimas que fizeram parte da minha vida, eu tive a infelicidade de perdê-las tragicamente. Lembro-me da minha primeira demissão.
- José Martins ainda está na loja?
- Acredito que sim. Quer que eu vá chamá-lo?
- Não, não é necessário. Deixa que eu mesma vou.
Era a terceira vez naquela semana que ela aparecia lá na loja. Nesse tempo eu trabalhava como segurança. Era um ótimo emprego, até Aline aparecer em minha vida.
Naquele dia, eu não tive sorte alguma, quando ela chegou à área em que eu trabalhava. Em horário de descanso, estávamos todos rindo de uma situação cômica em que um colega de trabalho tinha se envolvido. Infelizmente, quando ela me avistou, minha supervisora estava rindo com uma das mãos em meu ombro esquerdo, fazia piadas sobre um colega em meu ouvido, coisas de trabalho. O que haveria de mais? Era tarde para saber. Aline já tinha nos surpreendido aproximando seus punhos para o rosto da minha supervisora.
Até a situação se explicar. Custou-me muito, meu emprego.
Quando se tem uma mulher como Aline, não dá para terminar as coisas assim, facilmente. É comprar briga e escândalo. Isso não fazia o meu tipo, sempre procurei ser discreto. Afinal, por trás de uma louca obsessiva, havia uma deusa maravilhosa e eu me orgulhava de ser seu adorador, comendo das migalhas de amores e carinhos que raramente ela oferecia.
Aline nunca foi querida por minha família. Ninguém suportava suas crises de ciúmes. Minha mãe uma vez me disse: essa sua menina precisa de um psicólogo. Sem falar dos amigos do prédio. Era só eu chegar e começavam os comentários. Mas, eu, com meu ar de viril, sempre, dizia a eles que Aline era material precioso. Só precisava ser lapidado. Mas, a verdade é que o preço era muito alto. Certo dia, o Arnaldo, grande parceiro, usou de toda sua sinceridade para me convencer a ter mais cuidado com esse casamento precipitado.
- Zé, por que tão depressa assim?
- Arnaldo, não sou eu quem quer. Aline me perturba todos os dias. Se não caso, essa garota endoidece.
Não sabia eu que doida mesmo foi como ela ficou ao ver aquele bilhete no tapete do nosso quarto. Um mês de casado. Minha primeira semana de volta a faculdade. E provavelmente nossa última briga.
Tudo aconteceu quando, em sala, ouvíamos um poema de Cecília Meireles. Era uma aula de poesia. Eu ali, sempre muito interessado em literatura, me deleitava ouvindo minha professora recitar poemas, uma paixão que sempre me levava a outras, a poesia. Ao meu lado, coincidentemente, amigas de curso que tinham em mim certo auxílio na literatura estavam sempre muito próximas. Era um poema lindo. A professora tinha recitado no fim da aula. Não quis atrapalhá-la. Guardei somente o último verso e quis escrevê-lo. Desprovido, lutando contra o esquecimento de algum vocábulo, pedi a uma colega que escrevesse o verso que lhe falei bem baixinho. No final, ela escreveu as iniciais da autora. Após isso, coloquei no bolso da calça e provavelmente só hoje pela manhã deve ter caído.
Era a décima vez que eu lhe explicava o aparecimento daquele bilhete. Eu realmente estava assustado com aquela situação. Ela não acreditava nessa minha versão. Aline, descabelada, já tinha desarrumado todo o nosso guarda-roupa. Como uma louca, tinha chorado a tarde inteira e agora em raiva, em pranto, me convidava para uma briga que eu nunca quis. Em gritos, ela anunciava para os vizinhos do prédio:
- José! Até quando você vai mentir pra mim.
- Mas, Dona...
- Isso já acontece há quanto tempo? Me diga! Então, se não me amava, por que casou, José?
Após dizer essas palavras, com aquela gagueira de quem chora, vi que desta vez era diferente.
- Dona...
- Não me chame de Dona, José! Você não é mais minha propriedade.
(Eu sabia que nisto ela estava certa.)
- Estou cansada José. Cansada! Cansada de suas mentiras!
- Dona...
Desta vez, ela não resistiu ao meu cinismo quando tornei a chamá-la assim. De cima da cômoda, o perfume nupcial vinha agora em minha direção e despedaçava-se em meu braço esquerdo. Livrei-me de uma cicatriz no rosto. E o cheiro que eu zombava em gozo em nossas noites, agora era tão insuportável como algo que nunca desejei. Ainda tentei evitar, mas o sangue, insistentemente marcava gota a gota aqueles lençóis. Lindos lençóis, fiéis testemunhas da minha farsa de trinta dias de casado.
Já era o fim. Porém, eu considerava muito cedo.
Apesar do drama daquela noite, eu achava que era apenas mais uma crise de ciúmes de Aline. Mas, não foi. No dia seguinte, Aline pronunciou uma palavra que um homem como eu já esperava ouvir, mas não tão cedo. Divórcio. Em menos de um mês nos divorciamos. Eu não estava nada feliz com aquilo tudo. Tudo muito rápido. Um mês atrás “possuído”, um mês a frente livre como um vira-lata. Um excesso de liberdade.
Aline não afrouxava da ideia de que fora traída e não aceitava a forma cínica como eu lhe dava com aquela situação. Foi triste para todos ver aquele casamento acabar. Mas, catastrófico foi ver no que todo aquele meu amadorismo.
A verdade é que Aline era muito ciumenta, e eu dotado de muito cinismo e farsa. Disputava com a moçada quem pegava mais garotas numa mesma noite. Numa dessas vi Aline. Apogeu da virilidade de qualquer sujeito como eu. Fui um sortudo apostador e ganhei. Minha sede era insaciável. Todas as vezes que podia, eu a tinha. E sempre a queria mais. Mas, a queria como queria também as outras. Como quis minha prima, desde moleque.
Quando desvirginei Soraia, vi que não há nada que marca tanto uma moça que sua primeira vez. Ela nunca se esquece de você. Eu tão rápido a esqueci. Mas, por extinto sempre a alimentava. Uma, duas, três. Não sei quantas vezes não fui só de Aline. Soraia é uma paixão que jamais esquecerei, coisa de primos.
Uma noite depois de conhecer Aline, eu conheci Denise, supervisora de uma loja de roupas. Em apenas uma noite, conquistei uma quarentona e um emprego. Eu já esperava minha promoção, era futuro garantido. Confesso que foi muito triste vê Aline destruir um caso tão ardente e tão promissor como esse.
Aline gastava muito tempo levantando barreiras e obstáculos para que eu não tivesse uma vida comum. Mas, eu era douto em fugas, em situações perigosas. Quando pediu minha mão em casamento e aceitei, já se passavam nove meses da minha melhor fase, êxtase da minha libido. Enquanto isso, ela, radiante, experimentava os vestidos mais lindos nas butiques.
Foi trabalhando como segurança que pude pagar a matrícula da faculdade. Não sei o que fazia lá. Logo, tudo fez sentido. Carol, uma gracinha de dezessete anos. Iniciando uma brilhante carreira de escritora, como que por encantamento apaixonou-se por mim. Ainda tentei evitar, mas, não quis magoá-la. Lia todos os seus poemas, mostrava-me um leitor alvoroçado, quase biógrafo. Foi uma paixão louca.
Esta, eu não pude esconder e por instante fui um amador. Todos na faculdade sabiam do nosso caso. Beijos e abraços nos corredores. Frequentemente, matávamos aulas. Íamos a sua casa, e lá estudávamos línguas... Ela não era tão boba. Enlouquecida, certo dia, me fez um convite através de verso, dizendo: “Outra vez, te espero em minha cama, onde se encerra o mundo, onde se inicia um sonho” e marcou com as inicias de seu nome, Carol Marinho. Pus no bolso. Aquele bolso jeans.
Dessa vez tive pouquíssimo tempo para mentir. É extremamente útil duas escritoras terem iniciais idênticas. Mas, este marabalismo não foi suficiente para convencer Aline. Isto nunca havia acontecido. Eu, entregue a uma paixão? Embriagado, numa noite, falei bobagens, deixei brechas. Dias antes do nosso casamento, Aline já sabia que suas suspeitas tinham razões. Mesmo assim, me levou ao altar. Nunca entendi essa parte.
Quem sempre teve tudo a todo instante não suporta viver sem nada por muito tempo. Essas rápidas mudanças acabaram com Aline. Adoecera. Ainda fui visitá-la, levei flores, mas após alguns dias, depressiva, e sem se alimentar não resistiu. Suicidou-se. Uma lástima. Um desperdício de mulher.
Foi a primeira vez que vi isso acontecer. Então, vi que preciso ser mais cuidadoso. Essa coisa de ciúme é uma merda!
Assinar:
Postagens (Atom)